A CIÊNCIA E A FÉ

  • 28/02
  • Crônicas
  • Nelson Moraes

Publicado na Revista Internacional do Espiritismo do mês de junho 2012

Os homens que fazem avançar o progresso humano através da ciência, também são homens de fé que um dia inevitavelmente encontrarão Deus através de suas pesquisas. Acredito que os mais sinceros em suas buscas, e que não extrapolam do bom senso e da ética, irão encontrá-lo primeiro que muitos religiosos, pois estão interagindo com as obras de Deus ao se entregarem às pesquisas da natureza humana, cósmica e planetária, alargando os horizontes do conhecimento.
Quantos benefícios trouxeram para a humanidade essas maravilhosas inteligências que passaram muitas noites insones concentrados em suas teses e experimentações, as quais resultaram nas grandes descobertas que dilataram o bem estar e aumentaram as perspectivas de sobrevivência do ser humano ante as epidemias e doenças que durante séculos ceifaram milhões de vidas.
As experiências científicas que hoje assombram as mentes distraídas da realidade, assinalam um novo caminho para o encontro do homem com Deus, antes relegado apenas às religiões, cuja maioria fracassou e continua fracassando criando obstáculos dogmáticos entre o Criador e a criatura.
No campo da física, os cientistas em seus arrojados experimentos já começaram a esbarrar nas fronteiras entre a realidade do espírito e a realidade da matéria, perante as quais em breve terão que rever seus conceitos e reconhecer a existência de um Criador.
Albert Einstein em seus pensamentos demonstra ter esbarrado nessas fronteiras, por isso afirmou: “A ciência nos afasta de Deus, mas a ciência pura nos aproxima de um Criador”.
Soube reconhecer que a lei de causa e efeito não é apenas uma lei da física, mas sim uma lei que atua também nas questões morais respondendo as ações humanas. Seguro dessa realidade, afirmou:
“O sábio, consciente da lei de causalidade de qualquer acontecimento, decifra o futuro e o passado, que estão submetidos às mesmas regras de necessidade e determinismo. Sua religiosidade consiste em espantar-se e extasiar-se diante da harmonia das leis da natureza, revelando uma inteligência tão superior que, todos os pensamentos humanos e todo seu talento, não podem desvendar. Esse sentimento desenvolve a regra dominante da sua vida, de sua coragem, na medida em que supera a escravidão dos desejos egoístas”.
Sem dúvidas, Einstein encontrou Deus através da Ciência e abriu um amplo caminho que a colocou na direção do transcendente.
Ao estabelecer que toda matéria é um punhado de energia condensada, deu um passo além da materialidade, ora se a matéria é a energia que se condensa, que tipo de energia se condensa em matéria orgânica que se reveste de inteligência? Nós espíritas sabemos que o espírito é energia. Teria ele reconhecido a existência de uma energia inteligente, ou seja, o princípio inteligente que anima os seres vivos, e lhe faltou coragem para proclamar essa descoberta, ou sua missão era apenas construir uma conexão entre a Ciência e a Fé?
Embora não tenha proclamado sua descoberta em torno do transcendente, em um de seus pensamentos filosóficos ele deixa um vestígio que revela ter conhecimento de que o ser humano é algo mais do que apenas matéria orgânica:
“Cada um de nós vem para uma breve visita. Do ponto de vista da vida cotidiana, entretanto, existe uma coisa que precisamos saber: o homem está aqui para o bem dos homens. Acima de tudo, por aqueles de cujo sorriso depende a nossa própria felicidade. E também pelas intocáveis almas desconhecidas com quem nossos destinos estão ligados pelos laços de simpatia”.
É óbvio que alguém que vem para uma breve visita, terá que voltar para o lugar de onde veio, pelo menos é o que entendemos nessa afirmação, um materialista teria dito: nascemos para vivermos uma breve vida. Nisso podemos perceber que ele compreendia que o ser humano preexiste à matéria e que veio de algum lugar, para onde deverá voltar.
“Intocáveis almas desconhecidas com quem nossos destinos estão ligados pelos laços de simpatia”, ora, como podemos estar ligados por laços de simpatia com almas desconhecidas? Porque intocáveis? Será que ele conseguia sentir a presença de uma força exterior que o inspirava, e soube reconhecer como almas ligadas a ele por laços de simpatia? Só assim esse pensamento faria sentido. Talvez por isso afirmou em um dos seus pensamentos: “Penso noventa e nove vezes e nada descubro; deixo de pensar, mergulho em profundo silêncio e eis que a verdade se me revela”.
São hipóteses que merecem crédito, quem em sã consciência poderá afirmar que ele não transcendeu à Ciência materialista? Com certeza Einstein abriu um grande precedente para o surgimento da Ciência pura a que se refere. Ou seja, uma Ciência alinhavada na compreensão da existência de um Criador Supremo.
Depois do trabalho deste magnífico cientista que se tornou um ícone da Ciência moderna, podemos ter certeza de que o trabalho de Allan Kardec irá transcender aos séculos futuros norteando as atividades humanas no campo da Ciência, da Filosofia e da Religião e deve ser compreendido pelos espíritas como a maior descoberta científica da natureza ampla e profunda do ser humano e que deve ser propagada na essência tal qual nos foi revelada pelos Espíritos Superiores.
Muitos cientistas depois de Kardec se debruçaram sobre essa grande descoberta, mas se limitaram a estudar apenas os fenômenos produzidos pela mediunidade sem cogitarem da importância das características filosóficas que envolvem os ensinamentos e as revelações dos espíritos superiores. Alguns se dobraram ante a comprovação dos fenômenos mediúnicos prestando valioso serviço ao Espiritismo. Porém, nada de importante fizeram no intuito de oferecer um embasamento dos conceitos filosóficos fundamentados nas leis naturais e divinas reveladas, as quais presidem a realidade espiritual da vida. Não descortinaram as razões profundamente científicas pelas quais o ser humano deve optar para sua efetiva transformação ética e moral espelhadas nos conceitos filosóficos do Evangelho, até então tão desprezado pela Ciência.
Com Einstein foi diferente, não se deixou influenciar pelos preconceitos característicos da Ciência contemporânea, deu a devida importância às questões filosóficas suscitadas pelas suas experiências e descobertas, formulou pensamentos bastante afinados com os conceitos filosóficos do Espiritismo. Percebe-se uma incrível similitude neste pensamento: “A meu ver, portanto, a ciência não só purifica o impulso religioso do entulho de seu antropomorfismo, como contribui para uma 'espiritualização' religiosa de nossa compreensão da vida. Quanto mais avança a evolução espiritual da humanidade, mais certo me parece que o caminho para a religiosidade genuína não passa pelo medo da vida, nem pelo medo da morte, ou pela fé cega, mas pelo esforço em busca do conhecimento racional. Neste sentido, acredito que o sacerdote se quiser fazer jus a sua 'sublime' missão educacional, deve tornar-se um professor”. 
Sem dúvida, o trabalho de ambos encurtou a distância que separa a Ciência da Fé!
Kardec foi o cientista da alma; Einstein deu alma a Ciência.
Nelson Moraes

Fontes: "Ciência e Religião" (1939-1941) - Einstein, Albert, 1870-1955 Título original: "Out of my later years”.
"Escritos da Maturidade: artigos sobre ciência, educação, relações sociais, racismo, ciências sociais e religião. Tradução de Maria Luiza X. de A. Borges - Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 1994.


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