ÀS MARGENS DO EVANGELHO

  • 21/04
  • Crônicas
  • Nelson Moraes

    Ariel um menino, servo de uma família abastada, seguia por um certo caminho onde deparou com uma aglomeração de pessoas.
— O que estará acontecendo? - perguntou a si mesmo.
Curioso, depois de varar a multidão, viu um homem sentado sobre uma rocha, falando àquelas pessoas. Ariel estava próximo dele, quando alguém perguntou:
— Senhor! Quem é o maior no reino dos céus?
O inquirido olhou para Ariel e o chamou. Com certa timidez atendeu-o. O homem colocou a mão sobre sua cabeça e, acariciando seus longos cabelos negros, afirmou:
— Em verdade vos digo que, se não vos converterdes e não vos fizerdes como meninos, de modo algum entrareis no reino dos céus. Portanto, aquele que se tornar humilde como este menino, esse é o maior no reino dos céus.
Ao ouvi-lo, sentiu-se inebriado; seu coração se encheu de um bem estar inexplicável. Quem seria aquele homem cujo olhar repleto de ternura havia tocado sua alma?
Pensativo e preocupado em saber quem era aquele homem, rumou para Cafarnaum. Sentia uma felicidade imensa. Seu coração batia forte no peito. Estava confuso. Porque aquele encontro o tocara tão profundamente?
Ao chegar ao local onde sempre ficava hospedado, acomodou-se nos aposentos reservados aos servos que acompanhavam seus senhores nas viagens. Os servos que estavam com ele adormeceram. Ariel deitou-se; estava cansado, mas não conseguia dormir. Seus pensamentos estavam voltados para aquele homem que o impressionara. Demorou muito para adormecer.
Durante a madrugada, teve um sonho: Estava pairando no ar sobre campos imensos. Os campos que avistava estavam arroteados e preparados para a semeadura. Viu alguns seres iluminados, lançando sementes sobre aqueles campos. Ao caírem no solo, brotavam delas longos feixes de luz que subiam em direção aos céus.
Estava encantado com o que via. Aquela cena parecia cobrir toda a Terra. Contemplava extasiado aquela maravilha, quando sentiu uma brisa suave tocar de leve o seu rosto balançando seus longos cabelos negros. Virou-se, surpreso, viu ao seu lado aquele homem que o tocara nas profundezas da alma. Emocionado, pediu-lhe:
— Senhor, tranqüiliza meu coração. Diga-me quem és?
O homem estendeu o braço e com a mão aberta, apontou para aqueles campos e disse-lhe:
— Eu sou o filho do homem! E este é o motivo porque vim.
Ariel olhou para onde ele apontava. Viu aqueles imensos campos que se estendiam até o horizonte e, timidamente, falou:
— Senhor, não compreendo.
O homem, mansamente, explicou-lhe:
— Esta é a minha Seara! Eu vim para semear a luz sobre a Terra; preciso de semeadores.
Antes que pudesse proferir qualquer palavra, acordou. Esforçou-se para reter aquelas imagens na lembrança, mas a ansiedade em saber de quem se tratava tomou conta da sua mente.
Ficou acordado até o amanhecer. Sentiu uma vontade enorme de largar tudo e correr ao seu encontro.
No dia seguinte, depois de cumprir os afazeres de que fora incumbido, deixou Cafarnaum retornando a casa do amo.
Alguns dias se passaram. Ariel não era o mesmo; não conseguia pensar em outra coisa a não ser naquele homem.
Certa manhã, seu amo o chamou e ordenou-lhe:
— Ariel, quero que vá a Jerusalém. Procure pelo senhor Gamaliel e retire a encomenda de ferramentas que solicitei a ele há uns vinte dias. Devem estar prontas.
Ariel pegou um dos jumentos e partiu.
Chegando ao seu destino, depois de acomodar as ferramentas no jumento, tomou a estrada de volta, depois de muito caminhar, sentiu um sono muito forte que o fez deitar-se à sombra de uma grande árvore e adormecer.
Ariel sonhou que estava na cidade em meio a uma multidão agitada, curioso em saber o que estava acontecendo, passou por entre a multidão e entrou no palácio. Logo que atravessou a porta principal sentiu o perfume agradável daquele homem que o havia seduzido com sua meiguice. Instintivamente, seguiu em direção a uma sala próxima ao corredor de entrada. O homem a quem aprendera a amar, estava nas mãos dos seus algozes. Sem que estes o percebessem, aproximou-se dele, seu rosto estava banhado em sangue que corria dos ferimentos provocados por uma coroa de espinhos. Olhou para as marcas do açoite em seu corpo e, compadecido e com os olhos marejados de lágrimas, perguntou-lhe:
— Senhor, o que lhe fizeram? Por que o condenam?
— Ariel, aqueles que me condenam não sabem o que fazem. Mas é importante que nesta hora se cumpra a vontade de meu Pai.
Ariel, sem compreender o que estava acontecendo, angustiado pelo seu sofrimento e demonstrando sua inocência, afirmou:
— Não posso crer que a vontade do teu pai seja vê-lo sofrer, peça-mos aos anjos para que venham arrebatá-lo desse sofrimento.
— Ariel, os Anjos são nossos irmãos que alcançaram a Luz. Eles não pelejam contra os homens, mas os ajudam a reconhecerem seus erros e os reconfortam nas suas dores. Você é um dos Anjos do meu Pai, veio para reconfortar-me nesta hora, mas é importante que nesta hora se cumpra o que está escrito. 
— Senhor, deixe que eu fique contigo para sempre.
— Ariel, a tua presença me faz bem, mas é importante que vá! Pois, para onde eu vou agora, você ainda não pode ir.
Ariel, ainda sem entender direito o que estava acontecendo, saiu do palácio profundamente abatido. Amanhecia, a turba novamente tomava as ruas e as praças. Ariel retornou ao corpo, mas continuou dormindo.
— Um viajante que passava por ali o acordou:
— Ei, menino! Há quanto tempo você está dormindo sob esta árvore?
Ariel esfregou os olhos e, com eles ainda entreabertos, olhou para o viajante e respondeu:
— Não sei, por que me pergunta?
Faz muito tempo passei por aqui, seguindo para Jerusalém e você já estava dormindo nesse local, agora ao voltar, ainda dorme. Você está bem?
— Eu estou bem. O senhor está vindo de Jerusalém?
— Sim! Estive lá assistindo a crucificação de Jesus de Nazaré, o carpinteiro lunático, aquele que se dizia rei dos reis, morreu com uma coroa de espinhos na cabeça.
Ariel triste e indignado com a notícia da morte do seu amigo, tomou as rédeas do jumento e seguiu viagem. Mais tarde acabou compreendendo quem era o seu amigo. Ainda jovem, mas um tanto amadurecido, passou a estudar os Evangelhos e se tornou um apóstolo anônimo de Jesus realizando grandes prodígios na Seara Cristã.

Nelson Moraes


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